Pesquisa sobre Transidentidades revela talento de jovem bolsista do CNPq




Confira a matéria com entrevista concedida ao site do CNPq:

 

Suas referências teóricas são Judith Butler, Michel Foucault, Paul Preciado, Guacira Lopes Louro, entre outros estudiosos e especialistas que tratam a questão do gênero e da sexualidade dentro de um viés social. Mas foi sob a influência de Lili Elbe, uma das primeiras pessoas no mundo a realizar uma cirurgia de transgenitalização, que Fabrício Pupo Antunes, de apenas 15 anos, decidiu mergulhar nesse tema “tão polêmico e ao mesmo tempo fascinante”, como ele próprio define.

Nascido em Campo Grande (MS), longe dos grandes centros de pesquisa, Fabrício não é um garoto comum. Desde cedo, estava determinado a ingressar no mundo da ciência com seu objeto de estudo praticamente definido. “Eu sabia que iria pesquisar essas questões, pelas quais sempre me interessei, mas depois de ler o livro A Garota Dinamarquesa, decidi incluí-lo”, disse, referindo-se ao projeto “Estudo sobre sexo, gênero e orientação sexual a partir da análise literária da obra A Garota Dinamarquesa, de David Ebershoff”, contemplado em abril de 2018 com uma bolsa no âmbito do Programa Iniciação Científica Júnior, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“Em março [de 2018], participei da FEBRACE-USP [Feira Brasileira de Ciências e Engenharia da Universidade de São Paulo – USP]. Lá, o projeto ganhou alguns prêmios: primeiro lugar na área de Ciências Humanas, Melhor projeto do Estado de Mato Grosso do Sul e a Bolsa CNPq, no valor de R$ 100, implementada em abril”, contou Fabrício.

Também na FEBRACE, sua pesquisa foi credenciada para participar do Verano Nacional para Estudiantes Sobresalientes (Vences), feira científica que seleciona 40 trabalhos no mundo, e em 2018 ocorreu no México. “Mas eu não pude ir, porque coincidiu com o período da [70ª Reunião Anual da] SBPC, em Maceió, e o professor Ivo recomendou que eu participasse da SBPC”, explicou o jovem pesquisador. O químico Ivo Leite Filho, doutor em Educação, é professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e um dos maiores incentivadores de Fabrício no universo da ciência.

Coragem e identidade

Pesquisar sobre um assunto ainda visto como tabu na sociedade é um constante desafio, admite Fabrício. Afinal, como ele mesmo diz, “um menino de 15 anos, aparentemente homem, escrevendo e falando sobre trans, pode parecer muitas coisas e despertar inúmeras interpretações”. Mas ele não se intimida: “Hoje, pesquiso experiências contemporâneas de jovens dissidentes de gênero e sexualidade nas escolas de Mato Grosso do Sul. Analiso relatos, recebido através de um blog que desenvolvi como metodologia de estudo – o Transidentidades.”

“Até aqui, Lili me ensinou muito sobre coragem. Coragem para enfrentar desafios para ser o que quiser ser, o que for possível ser, para falar sobre o que me causa encantamento¿ ainda que para isso tenha que buscar e muito, o entendimento”, escreve em seu blog.

Participar da 70a Reunião Anual da SBPC foi um dos eventos mais extraordinários para Fabrício. “Lá, pude fazer vários contatos, participei na sessão de pôsteres, na qual o projeto ganhou Menção Honrosa, apresentei para o grupo do Ministério da Saúde e conheci o [então] presidente do CNPq. Foi uma semana muito intensa”.

Amigo do autor

Primeiro foi o filme. Com a leitura das críticas ao roteiro muito “romanceado”, veio o livro. De um jeito ou de outro, a obra de David Ebershoff já havia mexido com as emoções de Fabrício. Mais uma vez incentivado pelor professor Ivo Leite Filho, ele foi buscar informações sobre o autor. Encontrou o site de Ebershoff. Não titubeou e enviou um e-mail falando de sua pesquisa. Seis dias depois, o escritor norte-americano respondeu, e desde então, passaram a trocar mensagens e se tornaram amigos.

Ao que tudo indica, Ebershoff virá para a 71a Reunião Anual da SBPC, este ano, justamente em Campo Grande, organizada por Ivo Leite Filho. “Gostaria muito de conhecer pessoalmente o David Ebershoff. Somos amigos, trocamos muitos e-mails e ele foi de uma gentileza incrível desde o começo de minhas pesquisas com sua obra”, diz.

Ebershoff também é professor, e certamente sabe a diferença entre um garoto comum e um garoto extraordinário, aquele que, como diz Manoel de Barros, precisa ser Outros.

Entrevista

“Meu principal objetivo é tornar vidas mais viáveis”

Estudante em tempo integral do primeiro ano do Ensino Médio no Colégio Novaescola, da rede privada de ensino de Campo Grande (MS), Fabrício é o único filho de Rogério Pupo Antunes,43 anos, autônomo, e de Fabiana F. Cabral, 37, professora. No projeto do CNPq, é orientado pelo professor Dr. Tiago Duque, coordenador do Grupo de Pesquisa em Gênero, Sexualidade e Diferenças, na UFMS. Sua pesquisa também transita no campo da Psicologia. Fabrício participa do Grupo de Estudo de Gênero e Psicologia, da UFMS, coordenado pela professora Dra. Zaira Lopes, no qual a sexualidade é discutida sob essa outra perspectiva.

A seguir, a entrevista que Fabrício concedeu ao CNPq.

Você é, digamos, um ponto fora da curva entre jovens da sua idade. Considera-se exemplar?

Eu me considero responsável e comprometido. Mesmo com uma agenda bastante movimentada por conta do projeto, viajo bastante, participo de Feiras Científicas e dos grupos de estudo na universidade, cumpro com todos os compromissos da escola como provas, trabalhos e tarefas. Faço tudo, cumpro prazos. Tenho muito apoio da escola para poder pesquisar, por isso faço questão de manter minhas  notas altas em todas as matérias.

Alguém inspira você na sua maneira de ser e de pensar o mundo?

Quatro pessoas em especial: o professor Dr. Tiago Duque, pela atenção incrível que me dá através de suas orientações; o professor Dr. Ivo Leite, incansável no trabalho de levar a ciências para todas as pessoas e de aproximar a universidade das escolas; o professor Newton Mihayra, diretor da escola onde  estudo, que me apoia e me motiva na minha rotina como estudante e pesquisador; e o escritor e professor David Ebershoff, que, mesmo de longe (Nova York), me orienta, inspira e auxilia nos estudos.

Que Brasil você espera para o futuro?

Eu espero que o Brasil se desenvolva no sentido de ser melhor para todos. Que as pessoas valorizem a democracia, que deem importância devida à educação e que ela seja a realidade de todos. Espero, também, que a ciência e a ética estejam mais presentes no governo e na sociedade.

E que mensagem gostaria de passar para jovens como você?

Gostaria que nós jovens entendêssemos desde cedo a importância do estudo e da pesquisa, considero isso muito importante. Mas sobre deixar uma mensagem… meu conselho é que se sintam motivados a participar das transformações tão necessárias para nosso mundo, que sejam protagonistas de suas vidas e que acima de tudo lutem pela coletividade.

Fale sobre algo que não perguntei e você considera importante mencionar.

Sou uma pessoa muito feliz por fazer o que  faço e pela pesquisa que realizo. Quero poder fazer mais e levar o tema para além da universidade e da escola. Meu principal objetivo é tornar vidas mais viáveis. Sou grato a todos e todas pelo apoio e ao CNPq pelo incentivo e oportunidade.

Uma produção do Programa de Divulgação e Disseminação Científica do CNPq

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