Primeira advogada trans negra do MS: ‘Todo mundo gosta de travesti na esquina, não na universidade’




Segue abaixo, alguns trechos da matéria publicada pelo The Intercept Brasil com a Alanys Matheusa travesti, negra e acadêmica do curso de direito no estado de Mato Grosso do Sul. Alanys, compartilha através da matéria, sua história de luta e desafios em um dos estados mais violentos, em relação à população LGBT, do Brasil.

A matéria é um relato de luta e resistência em um cenário hostil às identidades que desafiam as normas, uma história que precisa ser compartilhada.

 

 

ALANYS MATHEUSA É UMA EXCEÇÃO. A jovem de 22 anos será a primeira mulher trans negra a se formar em Direito, no Mato Grosso do Sul, o quarto estado do Brasil com mais casos de violência contra pessoas trans. A média de assassinatos alcança cinco em cada 100 mil habitantes, mais do que o dobro do conjunto do país. Falta um semestre para Alanys terminar o curso, graças a uma bolsa de 100% do Prouni em uma universidade da capital Campo Grande. Ela já passou na prova da OAB.

Alanys conseguiu uma vaga quando ainda havia cotas e financiamento à educação. Ela também atribui a sua conquista ao apoio e esforço da mãe, Ruth Maria, empregada doméstica que batalhou sozinha para cuidar dela e das três irmãs.

“Até os meus 13 anos, eu expressava minha feminilidade de forma muito clara, mas isso mudou quando entrei na igreja. Embora muito feminina, até os meus 19 anos, período em que eu frequentava os cultos, costumo dizer que a minha transexualidade ficou em coma. Deixei de usar as roupas e me expressar como eu gostaria. Apesar disso, gostei desse tempo. Creio que a igreja na periferia acaba fazendo, hora ou outra, o papel do estado. Muita gente se beneficia, mas, no caso de corpos trans, a igreja não consegue suprir e entender a nossa realidade. Por isso, saí.

Nesse processo de compreender minha identidade e meu corpo, sofri algumas violências na escola. Uma situação que me marcou muito foi quando fui agredida durante um evento. Eu tinha 11 anos, e um garoto me deu um chute nas costas. Não era a primeira vez que ele me batia. Falei para o diretor o que houve e, como eu já havia procurado ele outras vezes, ouvi: “Você tem vindo muito aqui, talvez o problema não seja ele, mas você”. Na ocasião, pensei em parar de estudar. Minha mãe me disse que eu tinha que me manter firme, porque haveria muitos outros momentos assim na vida. Ouvir seu conselho me levou à universidade.”

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Foto: Deivison Pedre

Sou uma mulher trans, mas também me apresento como travesti. É uma forma de se apropriar de um termo que é marginalizado. Para mim, mulher trans é um termo gourmet para travesti, porque a mulher trans é a pessoa que teve a possibilidade de fazer procedimentos. No imaginário do brasileiro, a travesti é aquela que está na prostituição, é aquela que é ridicularizada. Quando me aproprio do termo como acadêmica, advogada, eu estou falando que existem corpos travestis que conseguem transcender essa realidade.

A quebrada valoriza o fato de eu ser a primeira trans negra prestes a se formar em advocacia no Mato Grosso do Sul, mas ela não compreende a minha transexualidade. Por mais que ela reconheça essa conquista, parece que esse é o limite da aceitação. Posso ser aquela lacradora, deusa, rainha, a que ‘closa’ demais, mas ser boa o suficiente para ter um relacionamento, um trabalho digno já é outra coisa. Eu sempre questiono: qual é o conceito de trans que a periferia tem? O valor de uma trans não pode estar atrelado somente ao seu trabalho e sucesso.”

Para ler o texto na íntegra é só acessar : https://theintercept.com/2019/09/05/primeira-advogada-trans-do-ms-todo-mundo-gosta-de-travesti-na-esquina-nao-na-universidade/?fbclid=IwAR30CR-UyopXwb2Mpurk9X_Ag2zDLTfox3-SoZY4gVAB7T45U03Ks_4SacU



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