Sobre ser bicha na escola




O relato a seguir é do Professor Cleiton Münchow. Encontrei o texto na postagem de uma amiga no Facebook, entrei em contato pela mesma rede com ele para pedir a publicação no blog. O Prof. Cleiton gentilmente cedeu o relato para ser publicado aqui.

Para quem acessa Transidentidades e já conhece a aba Transescola, sabe sobre o recolhimento dos relatos de jovens dissidentes de gênero e sexualidade nas escolas de Mato Grosso do Sul e da importância dessas histórias para a pesquisa que desenvolvo. São relatos como o do Prof. Cleiton e dos inúmeros jovens que já passaram por aqui que fazem com que haja reflexão sobre os problemas relacionados ao preconceito contra os LGBT na escola e reforçam a iniciativa por posturas mais democráticas e respeitosas por parte das instituições e pessoas que dela fazem parte, na garantia de vidas mais seguras e possíveis.

” 33 – 9= 24. Este é o número de anos que passei no interior dos muros escolares, número cujo significado, coincidentemente – e isto eu aprendi na escola, pois os meninos tinham pavor de que seu número na lista da chamada fosse este – é atribuído ao veado. Ocupar este lugar na lista, nestes 24 anos, tem sido problema para muita gente. Bicha, viado, queima rosca, gay, gayzinho, mulherzinha, eu poderia continuar, pois a lista de nomes que já utilizaram com o objetivo de me ofender na escola é grande.
Foi ao som desses elogios que me tornei essa bicha maravilhosa que sou! Até a terceira série foi tudo tranquilo (deixo de lado o que se passava em casa!), nesta série passei a frequentar o recreio com os mais velhos e foi aí que comecei a deixar de gostar da escola e a reprovar. Repeti a quarta série algumas vezes por culpa da matemática e da homofobia que eu só conhecia na prática e não de nome. Minha segunda vez na quarta série se deu juntamente a um processo de mudança familiar, porém como o fim do ano se aproximava fiquei na mesma escola e foi quando a coisa começou a apertar mesmo. Eu era obrigado a esperar um ônibus para ir para nova casa, essa situação me tornou alvo fácil da gurizada que se reunia ao meu em torno para dizer palavras ofensivas e  me chutar, isso aconteceu por meses.


Da minha segunda vez na quarta série até a sexta a violência física acabou, pois eu aprendi a fugir sem nem mesmo ter lido Deleuze. Porém as agressões verbais direcionadas a mim não pararam. Havia um menino machão que ficava me perseguindo e perguntado se eu era homem ou mulher, ele fazia isso todos os dias e junto com as perguntas seguiam-se as ameaças, todo dia era uma tensão, aprendi a matar aula! Na quinta série ninguém falava comigo na sala, acho que com medo de contaminação, era horrível ter que ir a um lugar sem a presença de um rosto amigo e saber que todos estavam debochando de mim. Foi na sexta que, pela primeira vez, o negócio doeu fundo mesmo. Fiz uns amigos na rua onde morava, pensei que  tudo ficaria melhor na escola, pois estudávamos no mesmo lugar. Certo dia fui conversar com um desses amigos no intervalo e ele fingiu que não era com ele, depois, fora da escola, ele veio falar comigo, pediu que eu não conversasse mais com ele, pois os outros meninos ficavam zoando dele e coisas do tipo, só me restou, no alto dos meus 11 anos, aceitar o pedido, não o procurei mais nos intervalos.


Como eu havia reprovado durante muitos anos minha mãe achou melhor colocar-me num supletivo de primeiro grau, assim eu poderia concluir a sétima e a oitava em apenas um ano, isto me permitiria recuperar o tempo perdido. Sentia-me muito bem com as pessoas do supletivo, afinal eram mais velhas. Foram elas, entretanto, que me fizeram parar de sorrir, eu ria muito por estar feliz. Porém, uma colega, uma mulher de uns 40 anos, teve uma conversa séria comigo: ela disse que eu não deveria rir tanto, isso não era coisa de homem. Como eu desejava me incluir, deixei de sorrir. Os olhares, as piadinhas se seguiram, mas eu já começava a me acostumar.

No ensino médio foi melhor, pois tive mais amigos e assumi uma postura mais combativa (mas continuava na confusão de olhar para todo lado e não ter modelos de referência que me auxiliassem a abrir as portas do grande armário). Essa postura não foi suficiente para que ao lado do meu nome na lista de chamada não fossem escritas palavras ofensivas e para que eu deixasse de ser ameaçado, sobretudo, por dois meninos, mas nunca aconteceu nada, eu tinha amigos! De todo modo era muito difícil ficar ouvindo as piadas e as ameaças.

O pior de tudo é que eu não tinha a quem recorrer. Como eu poderia relatar em casa as coisas que me falavam se eu sabia que isso levantaria suspeitas ao meu respeito? Como poderia procurar alguém da escola se eu ouvia barbaridades dos professores a respeito da homossexualidade (para eles era homossexualismo mesmo)? Lembro até hoje de uma aula de espanhol em que a professora gastou o tempo de aula para nos prevenir a respeito da novela (A próxima vítima) que estava introduzindo casais homossexuais. De acordo com a professora, isso ia nos prejudicar, pois, amanhã ou depois, nossos filhos pensariam que isso era normal. Como recorrer a psicóloga da escola, pessoa que eu tanto admirava, se quando ela suspeitou da minha sexualidade  lançou as seguintes palavras: “Não me decepcione, Cleiton”. Como recorrer a equipe pedagógica se um dia, quando sem querer, usei uma palavra feminina para referir-me a minha pessoa fui rapidamente repreendido? Como recorrer a médica palestrante que foi falar sobre sexualidade se ela estava mais preocupada em disseminar preconceitos do que com qualquer outra coisa? Para ela o sexo anal era sujo e fonte de doenças!


Tornei-me professor e logo que assumi minha vaga na escola Pedro Macedo no Paraná, no meu primeiro dia de trabalho participei de uma reunião a respeito de um projeto que se chamava Pedro Macedo construindo a cidadania.  A reunião objetivava escolher um tema para ser trabalhado para despertar o espírito da cidadania nos jovens e, por isso, um colega, meio que de brincadeira, sugeriu a homossexualidade como tema, a sugestão foi seguida de gritinhos de deboche. Mas aí eu já não era mais uma bichinha, eu já estava me tornando uma bichona que, entre outros, já havia lido o Devassos no Paraíso. Deixei todo mundo de queixo caído quando rapidamente agi diante da “brincadeirinha”, ninguém esperava uma bicha ali dentro, ainda mais uma bicha que fosse colocar em questão o que estava sendo dito. Com o corpo estudantil não se deu o mesmo. Eu tinha muito medo da reação, medo de não conseguir mais ministrar as aulas e coisas do tipo. Volta e meia xs estudantes sondavam minha sexualidade e eu de medo, sem negar, não respondia. E assim se passaram uns três anos em salas de aulas em diferentes escolas nas quais eu me pronunciava nas reuniões e me fechava na sala de aula devido ao temor em relação aos estudantes, além de ter medo eu me sentia culpado por não defender a causa!


Quando fui morar em Coxim inicialmente o medo aumentou, em cidade pequena a segregação pode ser ainda maior. Prometi a mim mesmo, por medo, ficar no armário até que o estágio probatório terminasse, mas já era tarde demais eu já era uma bichona com B maiúsculo, uma bichona leitora de teoria queer,  já não era mais possível ficar nesse jogo de esconde-esconde. Nos primeiros minutos com os colegas já fui logo mostrando ao que vim! Assim facilitava tudo para saber quem era amigx e quem não. Fiz um projeto de combate a homofobia para receber um adicional monetário no trabalho (claro que esse não era o real motivo pra mim, pois luto contra essa merda de graça mesmo, mas um dim dim sempre é bom). O diretor, responsável por aprovar ou reprovar o projeto, sugeriu que eu desenvolvesse meu trabalho em outra temática, de acordo com ele, menos polêmica! Perdi um mês de benefícios salariais para escrever um projeto sobre outra coisa, dessa vez não quis entrar em confronto, preferi ser ESTRATÉGICO. Durante os três últimos anos de trabalho já ouvi muitas barbaridades: um colega me chamou de professora com o objetivo de me ofender (ser mulher pra mim não é ofensivo, mas ele queria me ofender, há uma sutil diferença), outro disse que os homossexuais deveriam morrer num paredão, sistematicamente ouvi que eu não era homem de verdade (na verdade até considero isso um elogio, mas sei que quem fala vê isso como demérito) e por aí vai.


Com os estudantes minha postura foi outra. No primeiro dia de aula já me apresentei da forma seguinte: “Oi, eu sou o professor bicha de vcs, não precisam ficar pensando coisas”. Afirmei-me não por ter necessidade de ficar querendo chamar a atenção como muitos pensam, mas por causa dxs estudantes e dxs professorxs que ainda não têm forças para afirmarem suas identidades dissidentes e porque só sei existir assim, esse é meu jeito!

Enquanto professor sei que não tenho acesso a tudo o que se passa com xs estudantes, pois se trata de um mundo a parte, porém sei que muitos ainda sofrem e escuto as palavras viado, bicha, gayzinho, gayzão circularem como xingamentos na boca de muitos. O que faço diante disso? Além de levar discussões para sala e desenvolver projetos, me viro e pergunto: “ouvi a palavra veado, alguém aí está me chamando?”

Hoje tenho ferramentas intelectuais e afetivas para não me deixar afetar pela homofobia até onde isso é possível, mas e quem não tem? E as estudantes que têm que ouvir coisas dos professores? Sei que elas ouvem, pois algumas me contam! E como que o IFMS trata dessa problemática? Fechando o núcleo de inclusão e diversidade, criando barreiras aos meus projetos por meio da burocracia. Até quando vai ser assim? Até quando vamos continuar batendo, humilhando, matando quem escapa às prisões do heterossexualismo? Até quando a escola vai continuar produzindo ignorâncias perigosas em torno das mulheres, dxs negrxs, dxs trans, das sapatas, dos viados? Até quando a heteronormatividade será tomada como neutralidade pedagógica? Até quando vão continuar nos colocando para fora da escola ou nos chamando para dentro dela só para aparecer na foto e posar de pessoas sem preconceitos? Cada vez acredito menos nos projetos oficiais e cada vez mais tenho pensado que o lance é comer pelas beiradas compondo com a bicharada, rompendo com as relações formais e fazendo amizades. E aí, quem quer ser minha amiga?! Não sejamos mais bichas, sejamos super bichas, pois o nosso poder está em ser o que somos, se formos o que somos juntas aí será só festa e alegria! 


A propósito, leiam, bichas! Leiam, sobretudo, livros de bichice, eles podem salvar! Obrigado João Silvério Trevisan! “




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