Relatos das/os Jovens



Marília

“Bom, eu sempre tive apoio dos meus amigos em relação a minha orientação sexual. Eu até me identifico como gênero fluido e eles sempre aceitaram, mesmo não entendendo muito como isso “funciona”. Sempre me ajudaram nos desafios e nos momentos ruins em que eu passava em casa por eu ter me assumido para a minha família. No momento de aperto eles foram um sustento. A escola, meus amigos da escola, eram meu grande apoio.

Logicamente que ocorreu as situações em que algumas pessoas heteros (e algumas lgbt também) falavam pra mim que bissexualidade é confusão, ou que eu “iria descer do muro” a qualquer momento, ou até mesmo que eu me “rotulava” bissexual só pra continuar ficando com garotos, mas essas coisas nunca me abalaram.

Eu sei o que sou, sei das minhas preferências, sei do que gosto ou deixo de gostar, e sou feliz assim.
Eu agradeço bastante a alguns amigos que me acolheram em um sentido sentimental no meu momento de aceitação e libertação, que fizeram desse processo menos doloroso. Que fizeram a escola mais confortável…

Sem eles e o apoio recebido deles eu teria continuado infeliz e não seria a pessoa que sou hoje!”

Marcelo

“Na escola enfrentei diversos desafios com a questão da minha sexualidade, mas sempre tive ao meu lado minha família que sempre me defendeu, brigando, lutando comigo. Fazem isso até hoje e tenho a maior sorte do mundo em ter a minha família sempre ao meu lado.

Amigos e professores defendiam a mim, os problemas sempre tinham, algum menino que se achava o “maioral”, o mais “homem” não é?  Mas, nunca me abalei por eles, por xingamentos, rasteiras ou falatório. Sempre fui um menino forte pois, isso me fazia ficar mais forte cada vez mais e mais, além das pessoas boas ao meu redor que estavam comigo o tempo todo e que me defendiam. Sempre pensei: não sou como eles eu sou do bem! Sou da paz eu busco o meu direito de viver.

Minha maneira de amar, não me faz menos ser humano, mas a maneira como algumas pessoas me tratavam sim, faziam elas menos humanas pois não é aceitar e sim respeitar, apenas isso é o que queremos.

Mas fora esses males em minha escola eu me divertia muito, eu dançava e comecei a me interessar por esportes inclusive o futsal, atletismo, voleibol… fui conquistando pouco a pouco os espaços que eu queria ocupar. Assim, meus amigos passaram a me amar mais ainda, a me respeitar, assim como os professores que tenho amizade até hoje e que são pessoas que moram em meu coração e vou levar pra vida inteira. São pessoas que acreditam no ser humano, na pessoa, no cidadão que respeita e quer ser respeitado e estou muito feliz em poder compartilhar um pouco da minha vida, com relação a minha sexualidade em meio ao ambiente escolar.  Espero que minha história possa contribuir com algo, com alguma mudança seja nos jovens ou nos adultos nas escolas. E pra terminar”:

“SOMOS DIFERENTES NA IGUALDADE
PORQUE SOMOS IGUAIS NA DIFERENÇA”
(Arnaldo Toni)”, Obrigado.

Soraya

 

“Me chamo Soraya Oliveira e sou transgênero, resido na cidade de Ladário e estudo em uma escola de rede pública onde fui humilhada por ser uma pessoa homossexual.

Fui perseguida e até humilhada, as diretoras estavam adotando medidas discriminatórias contra mim, fizeram vários relatos mentiroso para me prejudicar. Jogaram sujo e sofri muito porque a direção da escola não queria adotar meu nome social, muito menos me chamar conforme eu me sinto perante a sociedade, as diretoras até me coagiram a expulsar de escola.

Eu estava quase perdendo as forças, já não queria mais estudar, quando uma energia vinda de mim mesma me fez seguir e lutar por aquilo que acredito, foi então que procurei a Secretaria de Educação onde recebi todo o apoio. Também busquei meus direitos na justiça atrelado ao Ministério Público que se prontificou a me ajudar e recomendou que a escola registrasse não só meu nome social, mas que me aceitasse como sou.

Hoje eu me sinto humana por ter conseguido vencer, graças também a uma amiga professora, Marta Cavalcante, que me apoiava nos momentos difíceis lá dentro da escola, ao meu amigo advogado André Oliveira, juntamente com o vereador Paulo Rogério que me acompanharam nessa dura caminhada que eu estava enfrentando. Foi através da ajuda desses amigos que hoje me declaro vencedora.

Eu venci e sou feliz por ter chegado ao lugar que muitos desacreditaram.
Eu lutei e bati de frente contra o preconceito, não tenho medo de retaliações. Eu não dou as costas para a vida, dou a cara!

Diga não ao preconceito nas escolas, respeito é recíproco.”

(Soraya, 24 anos)

 

 

Sofia

“Eu estudei o ensino infantil e fundamental inteiro em uma escola particular pequena de Campo Grande.

Durante esse período eu nunca desconfiei que eu fosse lésbica, só descobri no primeiro ano do ensino médio já em outro colégio, mas nessa primeira escola eu tive contato com uma educação muito crítica, consciente e de inclusão, e também com colegas homossexuais e bissexuais, ainda que poucos até porque a escola era pequena e de alunos mais novos.

Então, quando eu fui para o ensino médio em um colégio maior, também particular, com muitos LGBT, eu não tive um grande estranhamento, nem quando descobri que eu mesma era lésbica. Apesar de eu nunca ter me relacionado nem me interessado muito por meninos, eu não desconfiava e simplesmente não pensava que eu pudesse ser lésbica. Fiz muitos amigos homossexuais e bissexuais nesse colégio e no fim do primeiro ano descobri que sentia atração por mulheres.

A educação crítica da minha primeira escola e o ambiente com muitas pessoas como eu na segunda escola fizeram com que eu não tivesse que passar pelo doloroso processo, para muitos, de “sair do armário”. Tive a chance de encarar essa descoberta de forma natural. Havia um ciclo muito grande de homossexuais e bissexuais (havia trans também, mas poucos) que fez com que eu me sentisse a vontade e segura, não sofri nenhum tipo de perseguição ou bullying na escola, em uma experiência muito privilegiada que não é frequente, mas muito positiva.

Acho que o que mais me fez chegar a essa experiência incomum tão tranquila comigo mesma foi a minha educação primária tanto na escola quanto em casa de muita crítica e reflexão, a minha própria aceitação facilitou muito o restante do processo.”

(Sofia, 18 anos)

Marco

“Foi na escola que eu tive a visibilidade e representatividade que eu precisava para aceitar e viver a minha sexualidade da melhor maneira possível.

Foi na escola que eu descobri que estava tudo bem e eu não precisava ter medo de ser quem eu realmente era, lá eu tinha apoio.

Acho que lá por 2015 teve uma conversa que aconteceu no mês do orgulho LGBT em que participaram alunos, professores, funcionários e convidados representantes com propriedade no assunto, e aquilo para mim foi essencial, falar sobre diversidade sexual e de gênero naquele momento pra mim foi muito importante, foi um momento em que tudo mudou.

Além de mostrar muito sobre ter respeito com as diferenças, ajudou muita gente a quebrar os armários e serem livres para ser quem realmente são, e desde então eu reconheço a importância de assumir a minha sexualidade e ter isso como um ato político.

Eu sou uma pessoa muito grata por ter tido esse contato em ambiente escolar, pelo apoio dos professores e dos colegas.”

(Marco, 20 anos)

Leonardo

“A escola na maior parte do tempo se mostrou muito violenta para mim, o Ensino Fundamental todo por exemplo, apanhei e sofri agressões físicas e verbais, cheguei a fraturar a coluna em uma das agressões. Sempre fui muito reservado, não falava sobre minha sexualidade, mas as pessoas deduziam e eram violentas comigo.

No Ensino Médio resolvi me abrir para meus colegas, e nesse momento senti um apoio muito grande. Falavam que tudo bem, passaram a me defender de agressores. A escola passou a ser um lugar um pouco mais seguro e meu rendimento escolar melhorou muito, muito mesmo. O apoio dos colegas foi fundamental, e dos preconceituosos, acredito ter proporcionado mudança pela minha postura e pelo meu discurso – houve uma transformação naquele espaço e as ofensas diminuíram com o tempo.

Passaria por tudo novamente, pois fui fortalecido com toda experiência. O apoio recebido dos colegas e de parte dos professores foi importante inclusive para sair da homossexualidade e hoje me reconhecer trans. Estou vivendo esse processo. Hoje me sinto feliz e seguro com minha história e pronto para todos os desafios que a vida me reservar daqui para frente.”

(Leonardo, 21 anos)

Juno

“Eu sendo um adolescente recém entrado no Ensino Médio em uma escola nova onde me sentia meio deslocado e sem amigos logo reparei e tentei conversar com umas pessoas que me identificava e depois de um tempo consegui me enturmar num grupo de pessoas que adiante vieram ser meus amigos durante todo o Ensino Médio.

Essas pessoas que eu já julgava ser parecidas comigo tinha muito mais em comum do que eu imaginava, depois de um tempo de amizade e criar certa intimidade suficiente com esse grupo de amigos relatei que eu me achava estranho, meio deslocado e do meu incômodo perante a sociedade tradicionalmente heterossexual e que talvez eu gostasse ou me interessasse por meninos e que isso me assustava, pensamentos esses que muitas vezes tentei deixar guardada só pra mim pois não queria sofrer represálias de ninguém.

E para a minha boa surpresa ouvi o mesmo relato, de mais uma amiga na roda, que também gostava de meninas o que me confortou e não me fez sentir único no meio de tanta gente, essa amiga na roda já entendia melhor o que passava com ela e já tinha tido experiências, o que ajudou a ver que era normal e que era possível. Além disso me explicou como foi o processo de aceitação com ela mesma e com a família que é uma parte sempre difícil, mas possível.

Nesse período de me entender e ter aceitação consigo mesmo é doloroso sozinho, mas quando se encontra amigos para que haja apoio ou um ombro amigo fica tudo mais fácil e mais leve. Penso em como seria minha vida hoje se naquele momento de amadurecimento não tivesse amigos que me apoiassem ou que viviam as mesmas coisas que eu. No final do Ensino Médio esses mesmos amigos que me ouviram e me apoiaram antes me ajudaram e me encorajaram a ficar com alguém do mesmo sexo e foi ali que me encontrei e me entendi finalmente e que essa seria minha vida dali pra frente, agradeço pelos amigos compreensivos que tive e entendi que no final temos que ter sempre por perto pessoas que entende, que passam ou passaram a mesma situação que a gente quando se trata de assuntos como este.”

(Juno, 24 anos)

José

“Minha experiência positiva na escola se fez de algumas maneiras…tendo o nome social respeitado por todos funcionários, professores e coordenadores. O nome estava em listas, no armário, na chamada e afins.

Na escola, no ensino médio pude usar o banheiro do gênero em que me identifico. Tudo isso foi importante, pois evita-se a evasão escolar e ocorre uma diminuição da disforia, possibilitando um melhor aproveitamento dos estudos, que foi o meu caso.”

(José, 25 anos)

Gabriel

“Minhas melhores memórias em relação à sexualidade aconteceram no Ensino Médio.

Foi nessa época que eu comecei a descobrir minha sexualidade e foi nesse período que meus amigos começaram a se identificar como homossexuais ou bissexuais. O contato com a diversidade de sexualidade, ainda na escola, foi muito importante para que eu percebesse que é normal não ser heterossexual. Além disso, a reação positiva que meus colegas e professores mostravam aos meus amigos homossexuais me fez mais confortável com a ideia de me assumir.

Por isso, pensando na construção da minha identidade sexual, o contato e o respeito às diferentes sexualidades, no Ensino Médio, foi fundamental para minha aceitação como homossexual.”

(Gabriel, 20 anos)

Fernanda

“Na verdade, ainda não me assumi. Sou lésbica, mas muitas pessoas não sabem.

Foi no terceiro ano do Ensino Médio eu contei para minhas amigas da escola, foi aí que tive muita esperança. Recebi muito apoio, e isso é o que às vezes me encoraja a abrir o jogo com todo mundo, o que ainda não fiz.

Minhas amigas da escola me apoiaram, falaram que isso não mudaria em nada a amizade e inclusive passaram a defender a causa, o que me fazia me sentir mais segura. Esse apoio ainda é forte e muito importante para mim em momentos difíceis, nas angústias. Apoio dos amigos é fundamental, na escola então…”

(Fernanda, 18 anos)

Eduardo

“Ao beijar e trocar carinhos com um namorado na escola pela primeira vez percebi que muitas pessoas olharam, por causa desses olhares ficamos apreensivos, mas não nos agrediram e nem pareceram escandalizados.

A partir desse dia os olhares e as surpresas alheias diminuíram muito, as pessoas não achavam mais “estranho” dois meninos se beijando e realmente não há nada de estranho nisso. Porém, o mais surpreendente é que outros casais homoafetivos na escola começaram a aparecer, sem medo, sem preocupações e isso se tornou comum na escola, assim como os casais heterossexuais eram seguros em sua troca de afeto, os homossexuais também eram.

Ficamos muito felizes em ver que tomamos a coragem de desafiar o que era “normal” em nossa escola e abrimos espaço para que outras pessoas o fizessem, a escola se tornou um lugar seguro.”

(Eduardo, 18 anos)

Camila

“Como eu descobri minha sexualidade? A primeira experiência foi dentro de um ônibus, onde vi um menino lindo, muito lindo mesmo… e aí eu fiquei paquerando-o, encarando. Na volta do shopping eu acabei pegando o mesmo ônibus que ele, e no final eu deixei meu telefone nas pernas dele. Ele me ligou e começamos a conversar, eu achei a voz dele bem fina e questionei. Ele respondeu que era pelo fato de ter nascido menina e ter se tornado menino. Eu não me importei e continuamos conversando, éramos muito jovens, eu tinha quinze anos e ele treze.

Na verdade, não aconteceu nada entre nós, mas foi aí que descobri que eu poderia gostar de qualquer pessoa, independente de sexo ou gênero. Passei o ensino médio todo namorando um menino, mas sentindo mais atração por meninas e no final acabei ficando com uma amiga lésbica. Aí todo desejo veio à tona, meu desejo por mulheres se revelou ainda mais forte. Senti que não tinha problema isso, na escola pelo menos não. Outros jovens falavam abertamente sobre ficar com meninas ou meninos e aí fui criando coragem e assumindo para mim que aquele sentimento não era errado.

 Hoje me relaciono como homens e mulheres, na verdade não gosto de rótulos ou denominações. Costumo dizer que gosto de pessoas. Nunca sofri nenhum preconceito, pois minha aparência é muito feminina… sou muito menininha. Minha família não sabe, nunca falei por não ter assumido uma relação homo ainda. Quando tiver eu falo que estou namorando uma pessoa. Quando me perguntam do que eu gosto eu respondo que sou uma pessoa que gosta de pessoas. De certa forma a naturalidade em relação ao assunto que vivi na escola com meus colegas, afastou o sofrimento de mim.”

(Camila, 19 anos)

Bianca

“Bom, na verdade não tenho muita coisa a falar sobre mim em relação a minha sexualidade na escola, nessa época ainda não era assumida!

Mas sempre soube que o meu melhor amigo na escola era gay,  e era tão bacana ver do jeito que todos tratavam ele, sempre foi rodeado de amor, é claro que tinha algumas pessoas de mente pequena que faziam gracinha, mas ele sempre foi muito forte e nunca se abalou por isso, acho que como era uma escola de bairro e todos se conheciam, sabiam que a família apoiava e era presente… então ninguém ofendia ele diretamente. Hoje em dia ele é um homem incrível. Minha experiência no Ensino fundamental foi a força que aprendi ter com meu amigo.

Já no Ensino Médio no meu grupo de amizades havia pessoas gays e nunca vivenciei algum tipo de preconceito com eles, sempre os trataram muito bem na escola, os professores eram super mente aberta em relação a isso e sempre puxava a orelha de um ou de outro que tentavam fazer algum tipo de gracinha ou piadinha. Considero uma experiência positiva vivenciar esses momentos de defesa por parte dos professores. É mais fácil quando eles aceitam e defendem, porque eu acho que isso desestimula agressões, professores são exemplos.

Já na faculdade, vivenciei realmente essa situação, e sempre fui muito bem recebida e tratada com normalidade, e assim que tem de ser. A partir do momento que realmente entendi que eu era homossexual e assumi uma relação nunca deixei ninguém me atingir com qualquer tipo de comentário ruim, sempre pensei em tudo que ouvia dos professores e colegas sobre ter força, sobre ser livre e isso me dá força até hoje. Seja de quem for, isso, ao meu ver é algo que ajuda muito, nos aceitarmos como somos. Viva a toda forma de amor.”

(Bianca, 24 anos)

Aurora

“Até a minha mudança para a cidade de Campo Grande em que estudei em um colégio particular durante meu último ano de ensino médio em 2015, eu não havia tido nenhum contato com nenhum outro jovem LGBTI+ até então.
Dessa forma, foi nesse ambiente escolar que conheci as pessoas que me ajudaram a ter a certeza a respeito da minha sexualidade e a “sair do armário”.
Posso ainda ressaltar que eu tive um namoro assumido com outra menina nessa escola e não passei por nenhum tipo de preconceito por parte do colégio.
Além disso, tive um professor de sociologia e atualidades que me deu muito apoio, fortalecendo minha identidade em diferentes momentos nesse último ano escolar.”

(Aurora, 21 anos)